TENOSSINOVITE DE DEQUERVAIN NO AMBIENTE DE TRABALHO HOSPITALAR: O QUE É, POR QUE ACONTECE E SE O TRABALHO REALMENTE CAUSA ESSA DOENÇA?
- Idelfonso Carvalho

- 1 de mar.
- 8 min de leitura

1. O que é a tenossinovite de De Quervain?
A tenossinovite de De Quervain é uma inflamação dolorosa que acomete a bainha (ou túnel) por onde passam dois tendões responsáveis por movimentar o polegar:
O abdutor longo do polegar (APL)
E o extensor curto do polegar (EPB).
Esses tendões passam por um “corredor” ósseo-fibroso chamado primeiro compartimento extensor, localizado na face lateral (radial) do punho, próximo à base do polegar. Quando essa bainha se espessa, inflama ou “estreita”, o deslizamento dos tendões fica dificultado, gerando dor, estalidos e limitação funcional.
Na prática, a pessoa sente:
Dor na lateral do punho, próxima ao polegar.
Piora da dor ao segurar objetos, torcer panos, abrir potes, levantar peso com a mão em desvio ulnar (como segurar um balde), ou ao usar muito o polegar (principalmente em pinça).
Dor ao realizar o teste de Finkelstein, em que o paciente fecha o polegar dentro do punho e desvia o punho para o lado do dedo mínimo.
É uma doença relativamente comum, sobretudo em mulheres, na faixa de 40 a 60 anos, e pode afetar tanto trabalhadores quanto pessoas que não exercem atividades laborais intensas.
2. Como essa doença se desenvolve? (visão simples e objetiva)
Embora muita gente associe a tenossinovite de De Quervain diretamente ao “trabalho repetitivo” ou “trabalho pesado”, a ciência mostra que o quadro é mais complexo e multifatorial. De maneira didática, podemos pensar em três grupos principais de fatores:
Fatores individuais (biológicos)
Sexo feminino (a doença é muito mais comum em mulheres).
Faixa etária entre 40–60 anos.
Possíveis influências hormonais (por exemplo, gravidez e puerpério).
Variações anatômicas locais (como a presença de septos ou subcompartimentos para os tendões).
Fatores mecânicos (sobrecarga local)
Uso repetido do polegar em atividades que exigem pinça, torção e desvio do punho.
Microtraumas repetidos na região radial do punho (por exemplo, em alguns esportes).
Posições mantidas com o punho em desvio e o polegar em esforço contínuo.
Fatores inflamatórios e degenerativos
Espessamento da bainha sinovial.
Inflamação crônica e neovascularização.
Aumento de mediadores inflamatórios no tecido (citocinas, enzimas, etc.).
Ou seja: não é simplesmente “forçar demais a mão” que cria a doença. Em geral, ela aparece em pessoas que já têm uma certa predisposição e que são expostas, por algum tempo, a padrões de uso do polegar e do punho que sobrecarregam aquele compartimento específico.
3. A doença é causada pelo trabalho? O que diz a literatura científica
3.1. Associação não é o mesmo que causalidade
Do ponto de vista pericial, a grande pergunta é: “Essa pessoa tem tenossinovite de De Quervain por causa do trabalho, ou apenas com o trabalho?”
Pesquisadores analisaram essa questão em profundidade. Em estudos de revisão com metanálise, encontrou‑se associação estatística entre De Quervain e trabalhos manuais que envolvem movimentos repetitivos, força ou posturas ergonomicamente desfavoráveis. A razão de chances (odds ratio) encontrada sugeria que pessoas com esse tipo de exposição tinham mais chance de ter a doença em comparação com quem não tinha essa exposição.
No entanto, quando os autores aplicaram critérios clássicos de causalidade (como os critérios de Bradford Hill: força da associação, consistência, temporalidade, dose–resposta, plausibilidade, coerência, entre outros), concluíram que:
A qualidade metodológica dos estudos era limitada.
Faltava consistência e robustez dos dados.
Não havia evidência suficiente para afirmar que a tenossinovite de De Quervain seja causada diretamente por trabalho repetitivo, forçoso ou ergonomicamente desfavorável.
Em termos simples: Há alguns estudos sugerindo que determinadas formas de trabalho manual estejam mais associadas à doença, mas isso não é suficiente para dizer, com segurança científica, que o trabalho cause a tenossinovite de De Quervain na maioria dos casos.
3.2. Estudo caso‑controle com conclusão muito clara
Um estudo caso‑controle prospectivo, comparando pessoas operadas de De Quervain com pessoas operadas por outro problema de punho (como gangliom), analisou:
Idade, sexo.
Comorbidades.
Histórico de trauma de punho.
Tipo de trabalho.
Grau de trabalho manual pesado.
Exposição a movimentos repetitivos e força.
O resultado foi bastante direto:
Não houve diferença significativa entre o grupo com De Quervain e o grupo controle quanto a trabalho manual pesado, trabalho repetitivo ou trauma.
Em outras palavras, o grupo que “forçava mais” a mão não adoecia mais de De Quervain do que o grupo controle.
Do ponto de vista pericial, esse achado é muito relevante: nem o trabalho manual pesado, nem o trauma apareceram como fatores predisponentes consistentes para o desenvolvimento da doença, nessa amostra estudada.
4. Exemplos de contextos associados à tenossinovite de De Quervain
A literatura descreve vários contextos em que a doença aparece com certa frequência. Isso ajuda a entender o padrão real de risco:
4.1. Gravidez, puerpério e cuidado com o bebê
Em séries de casos, uma parcela importante de mulheres com De Quervain estava grávida ou em puerpério.
Em muitas delas, o início ou agravamento da dor coincidiu com o período de cuidado intenso com o bebê: segurar a criança, amamentar em posições sustentadas, trocar e levantar várias vezes ao dia.
Além da sobrecarga mecânica, há alterações hormonais (especialmente relacionadas ao estrogênio) que parecem tornar os tecidos mais vulneráveis.
Esse cenário mistura fatores hormonais e sobrecarga local típica, sem qualquer relação com trabalho “pesado” ou “industrial”.
4.2. Uso intenso de smartphones
Estudos com universitários mostraram que:
Uso de smartphone por 6–8 horas ou mais ao dia.
Uso intenso para jogos, redes sociais e lazer.
Uso dos dois polegares para digitar (tela vertical ou horizontal).
Determinados tamanhos de tela que exigem maior alcance do polegar.
Tudo isso aumenta significativamente a chance de ter sinais e sintomas de De Quervain.
Isso significa que:
Uma pessoa que não trabalha com esforço manual pesado, mas usa o celular por muitas horas diárias, pode desenvolver De Quervain.
O problema está mais no padrão de uso do polegar e do punho do que em ser ou não “trabalho braçal pesado”.
4.3. Esportes com microtraumas repetitivos
Relatos em atletas, por exemplo jogadores de voleibol de alto rendimento, mostram:
Aumento da incidência de De Quervain em quem treina muitas horas por semana.
Microtraumas repetidos na região radial do punho associados a movimentos específicos do esporte.
Aqui, mais uma vez, não é um trabalho de “cozinha” ou “limpeza”, mas um contexto esportivo profissional, com carregamento mecânico muito intenso e localizado.
5. Funções hospitalares e tenossinovite de De Quervain
No ambiente hospitalar existem diversas categorias profissionais:
Equipe de enfermagem (enfermeiros, técnicos, auxiliares).
Fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, médicos.
Profissionais da limpeza, conservação e serviços gerais.
Cozinheiros, copeiros, auxiliares de cozinha.
Equipe administrativa.
Manutenção, almoxarifado, lavanderia, entre outros.
É natural que funcionários perguntem se sua função pode causar " tenossinovite" de De Quervain. Vamos analisar de forma didática alguns grupos.
5.1. Profissionais da limpeza e conservação
Atividades típicas:
Varrer, esfregar, passar pano no chão.
Limpar vidros e superfícies, muitas vezes com movimentos repetitivos de braço e punho.
Manusear baldes, rodos, vassouras, panos, produtos químicos.
Eventualmente carregar sacos de lixo e recipientes.
Essas tarefas:
Envolvem uso das mãos e punhos, às vezes com desvio do punho.
Podem ser fisicamente cansativas.
Podem gerar outras queixas musculoesqueléticas (ombros, coluna, punhos em geral).
Porém, em relação específica à tenossinovite de De Quervain:
A literatura não identifica a função de “auxiliar de limpeza” ou “serviços gerais de limpeza” como grupo típico de risco para essa doença.
A sobrecarga do punho nesses trabalhos é, em geral, mais difusa (ombro, cotovelo, punho) e não tão concentrada em movimentos intensos e finos do polegar como em uso intenso de smartphone ou certos esportes.
Movimentos de varrer, passar pano e limpar até podem usar o polegar, mas não costumam exigir a mesma pinça intensa e sustentada, nem o tipo de movimento repetitivo focado especificamente no primeiro compartimento extensor.
Portanto, do ponto de vista científico atual, não se pode afirmar que o simples fato de trabalhar na limpeza hospitalar seja, por si só, causa típica de tenossinovite de De Quervain.
5.2. Serviços gerais e manutenção
Incluem atividades como:
Carregar materiais, pequenas mudanças, organização de ambientes.
Pequenos reparos, colocação de prateleiras, movimentação de equipamentos.
Tarefas variadas ao longo do dia.
Nesses casos:
Há esforço físico, mas muito variado.
Há alternância de segmentos corporais (ombros, coluna, joelhos, mãos).
Não há, em geral, um padrão extremo de uso do polegar em pinça apertada e repetitiva o dia todo.
Assim como na limpeza, a literatura não aponta “serviços gerais” em hospital como uma ocupação classicamente relacionada a De Quervain. Podem existir casos em indivíduos predispostos, mas não há demonstração de que a função, em si, tenha capacidade típica de causar a doença.
5.3. Cozinha hospitalar e auxiliares de cozinha
Atividades comuns:
Cortar alimentos, descascar, mexer panelas, montar pratos.
Lavar louças, panelas, utensílios.
Organizar bandejas, montar refeições de pacientes.
Manusear panelas e recipientes, às vezes pesados, mas com intermitência e alternância de tarefas.
É importante separar o “imaginário” do “demonstrado cientificamente”:
Intuitivamente, muitas pessoas pensam que “cortar e mexer panela o dia todo” necessariamente “estraga o punho”.
No entanto, as evidências de melhor qualidade metodológica não apontam a função de cozinheiro/cozinheira como causa comprovada de tenossinovite de De Quervain.
Estudos que avaliaram nexo ocupacional olharam para grandes grupos de “trabalho manual pesado” e “trabalho repetitivo” e, mesmo assim, não conseguiram mostrar que essas atividades fossem, por si, fatores causais robustos.
Além disso:
Os movimentos na cozinha tendem a envolver toda a mão, punho e antebraço, não apenas o polegar em esforço fino e intenso por horas seguidas.
A intensidade de esforço varia, há pausas, alternância de tarefas e uso de diferentes grupos musculares.
Por tudo isso, com base no conhecimento atual, não há fundamento científico sólido para afirmar que o trabalho como cozinheira, mesmo em hospital, tenha capacidade típica de provocar tenossinovite de De Quervain. Casos podem ocorrer em cozinheiras, assim como em qualquer pessoa, mas isso não prova que a atividade profissional seja a causa.
5.4. Equipe de enfermagem e outros profissionais da saúde
Enfermeiros, técnicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e médicos:
Manuseiam pacientes, medicamentos, prontuários, computadores.
Usam frequentemente as mãos para punções, curativos, manejo de dispositivos.
Também utilizam smartphones e tablets, muitas vezes fora do ambiente formal de trabalho.
Apesar desse uso manual intenso, a literatura não coloca nenhuma dessas funções, isoladamente, como “profissões típicas de De Quervain”. O que se observa é:
Profissionais suscetíveis (mulheres, em determinada faixa etária, com uso intenso de celular, em puerpério etc.) podem desenvolver a doença.
O trabalho pode piorar sintomas já existentes ou contribuir como um fator a mais, mas não há comprovação robusta de que essas funções sejam a causa primária e necessária.
6. Em resumo: o que dizer, de forma honesta, para o trabalhador e para o operador do Direito?
A tenossinovite de De Quervain é multifatorial.
Envolve fatores biológicos (sexo, idade, hormônios, anatomia).
Envolve fatores mecânicos (uso específico do polegar e punho em certos padrões).
Envolve fatores inflamatórios e degenerativos.
A ciência não confirma que trabalhos manuais pesados ou repetitivos, em geral, sejam causa direta e suficiente dessa doença.
Existem estudos com associação estatística.
Mas os critérios de causalidade não foram satisfeitos de forma consistente.
Um estudo caso‑controle bem conduzido não encontrou diferença significativa entre quem fazia trabalho manual pesado e quem não fazia.
O trabalho de cozinheira, de limpeza, de serviços gerais ou de manutenção em hospital, por si só, não aparece na literatura como ocupação típica causadora de tenossinovite de De Quervain.
Podem existir casos de trabalhadores com a doença nessas áreas.
Isso, isoladamente, não prova que o trabalho seja a causa.
É necessário analisar o caso individual, a história clínica, a presença de fatores pessoais (por exemplo, sexo feminino, idade, puerpério, uso intenso de smartphone, prática esportiva, etc.).
Do ponto de vista pericial e jurídico, não se pode presumir nexo causal apenas pelo cargo.
Ter o diagnóstico e ser cozinheira ou auxiliar de limpeza não significa automaticamente que a doença é profissional.
A análise deve ser técnica, baseada na literatura, na descrição detalhada das tarefas e na presença de outros fatores de risco.
A melhor postura é de transparência:Para o trabalhador, é possível explicar que:
A doença é real, dolorosa e merece tratamento adequado.
O trabalho pode, em alguns casos, piorar a dor ou dificultar a recuperação.
Contudo, a ciência não consegue afirmar, com segurança, que o trabalho de cozinha, limpeza ou serviços gerais cause essa patologia.
Para o operador do Direito, é importante deixar claro que:
Há diferença entre “contribuir para sintomas” e “ser causa direta e necessária da doença”.
A literatura não sustenta, no momento, o enquadramento automático da tenossinovite de De Quervain como doença ocupacional típica de funções como cozinheira, auxiliar de limpeza ou serviços gerais em hospital.
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